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CONTO BODAS

Escrito por Camilo N. Góes on .

A festa de comemoração dos dez anos de casamento estava sendo realizada no quintal da casa do bairro operário, onde fora improvisado um toldo para abrigo do celebrante. O casal decidiu pela festividade por insistência da esposa. Ela queria uma cerimônia completa, como se fosse o verdadeiro casamento, com direito a cobertura fotográfica profissional. Ela sempre reclamava com o marido por não terem um álbum de fotografias para relembrar o dia, que nas palavras dela, era o mais importante de sua vida. Na época o serviço era caro para suas posses e o amigo que se dispôs a fotografar o evento era muito amador na arte. Apesar de consumir mais de dois rolos de filme, só restou uma meia dúzia de fotos mal enquadradas e sem nenhum brilho. Seu equipamento não dispunha de “flash” e naquela manhã de julho fazia um tempo fechado, a atmosfera se apresentava carregada, ameaçando chuva. 

 

Joana era uma mulher bonita, mulata de pele macia, olhos negros, grandes, como duas jabuticabas, cabelos pretos, lisos, até os ombros. Era filha de um casal de mulatos, fruto da miscigenação dos colonizadores Portugueses, com imigrantes Europeus e escravos Africanos. Não era uma mulher de grande estatura, media 1,68 m, porém tinha pernas grossas, quadril avantajado e seios fartos, puxando mais o lado africano de sua ascendência. Pelo contrário seu marido Geraldo era um “negão” de 1,90 m, forte, rosto redondo, barba rala, olhos pequenos, emoldurados por sobrancelhas grossas. Um típico descendente do continente Africano. Casaram-se muito jovens, ele com 18 e ela com 15 anos, ainda quando residiam na roça, onde ajudavam os pais no cultivo da terra. Conheciam-se desde crianças e o namoro começou cedo com a aprovação dos pais, que eram vizinhos de sítio. Logo após o casamento concluíram que aquela vida no campo não lhes traria grande futuro. Resolveram de comum acordo tentar a sorte em uma cidade maior. Juntaram algum dinheiro e emigraram para Cel. Fabriciano. A região estava em franco desenvolvimento devido à expansão da Usina Siderúrgica da Acesita. Hospedaram-se em uma pensão barata na periferia da cidade, contudo emprego não estava fácil. Havia muita concorrência e as empresas em geral exigiam o mínimo de formação no grau Ginasial e eles só tinham o primário, completado na escola rural da localidade onde moravam. Formavam um casal decidido e essa barreira não os impediu de perseguir seus objetivos. O dinheiro já havia terminado, mas conseguiram com a dona da pensão um acordo para que Joana ajudasse na cozinha, quitando assim as diárias do casal. Depois de algum tempo, indicados pela hoteleira, foram contratados pelo Sr. José Alberto. 

José Alberto era alto funcionário da Acesita e estava sendo transferido para o escritório central em Belo Horizonte. Necessitava de pessoas de confiança, pacientes e que denotassem carinho pelos mais velhos, para cuidar dos pais. Na entrevista com o futuro patrão o casal foi claro expondo seus planos de conseguirem a formação em cursos técnicos que lhes proporcionassem melhores oportunidades de emprego. José Alberto gostou do jeito do casal que lhe inspirou total confiança, contratando-os imediatamente.  Indicou-lhes como obter a Carteira Profissional que assinou pagando o salário mínimo a cada um. Eles teriam que residir na casa para melhor dedicar suas atenções aos velhos. 

O pai, seu Totonho como era conhecido na cidade, já com 75 anos, sofria do “Mal de Parkinson”. Tinha sido um dos pioneiros da cidade, do tempo ainda do distrito de Melo Viana, pertencente ao Município de Antônio Dias. Ao se emancipar de Antônio Dias, o distrito recebeu o nome atual como homenagem ao Tenente Coronel Fabriciano Felisberto Carvalho de Brito. Seu Totonho era muito querido pela população, que o elegeu Prefeito do novo Município, em mais de uma oportunidade. Como farmacêutico prático, há 50 anos estabeleceu uma das primeiras farmácias do local, que apesar do pomposo nome, “FARMÁCIA VALE DO RIO DOCE”, era conhecida até hoje como a Farmácia do seu Totonho. A mãe, Da. Sebastiana acabara de completar 73 anos e devido à catarata se encontrava quase cega do olho direito. A velha, enquanto primeira dama do Município dedicou-se à filantropia. Apesar de ser mãe de filho único, ela gostava muito de criança e ajudou a cidade com ações de caridade no atendimento a famílias carentes. 

José Alberto toda semana vinha para uma visita aos pais. Com o tempo, vendo que eles estavam sendo bem tratados espaçou as visitas e ultimamente só comparecia no final do mês. Nessa ocasião fazia a provisão da casa e o pagamento aos empregados. Para Geraldo e Joana aquele emprego foi uma benção dos céus, pois lhes permitiam estudar, para consecução de seus objetivos. Ele matriculou-se no turno da noite e ela pela manhã, períodos em que se revezavam no atendimento aos velhos. No resto do tempo, Geraldo se encarregava de cuidar do jardim da frente da casa. Mantinha a grama aparada e os canteiros de rosas, paixão de Da. Sebastiana, bem cuidados. O quintal, onde havia muitas árvores frutíferas e até uma horta, também recebia atenção de Geraldo. Trabalhar a terra era o que mais sabia fazer. Sua esposa se incumbia dos afazeres domésticos. Cozinhava, arrumava a casa e dedicava mais tempo que o esposo para conversar com os velhos. Seu Totonho e Da. Sebastiana viviam felizes e diziam ao filho que estavam bem amparados. Eles gostavam do jeito alegre de Joana, que estava sempre com um sorriso estampado no rosto. Seu modo expansivo a aproximava mais do casal que apreciava muito suas conversas. Sua gargalhada os fazia sorrir. Para Geraldo foi um aprendizado o trabalho com o casal, porque despertou nele sua vocação para a área de atendimento ao público. 

Toda noite ao regressar do colégio, passava pelo quarto dos velhos para conferir se estavam dormindo bem. Certa vez seu Totonho se apresentava gripado e Geraldo ao fazer sua ronda noturna notou que o velho respirava com dificuldade. Imediatamente providenciou sua remoção para o hospital. Na manhã comunicou-se com o patrão passando-o todas as informações sobre o ocorrido, ressaltando que a situação estava sob controle. No fim de semana o patrão veio ver o Pai, que já se encontrava melhor. Os médicos então lhe disseram que o atendimento imediato foi fundamental para a recuperação do Pai.

Assim que se estabilizaram no emprego Joana engravidou. A criança, João, nasceu próximo ao dia do primeiro aniversário de casamento. Logo no ano seguinte nasceu Geralda. Os irmãos eram nascidos no mesmo dia e mês, com um ano de intervalo. A filha parecia com a mãe e João era a cara do pai. As crianças eram a alegria dos velhos. À medida que iam crescendo e aprendendo a falar, foram ensinados a tratá-los por Vô e Vó o que os enchiam de grande satisfação.

Como Geraldo e Joana praticamente não tinham despesas para se manter, conseguiram juntar um dinheiro na caderneta de poupança, que depois de algum tempo serviu para a entrada na compra do fusca. Era um veículo usado, na cor azul celeste, modelo fuscão 1970, mas de muito boa procedência, conforme atestado por mecânico da confiança do patrão.  Ambos se habilitaram como motoristas. Assim facilitaram o atendimento aos velhos que agora poderiam ir à missa aos domingos, sem necessidade de pegar táxi. Geraldo se afeiçoou tanto ao carrinho que o “batizou” com o nome de “TROVÃO AZUL”. Trocou o rádio jandal instalado no painel por um toca fitas “TDK”, auto reverse, trazido diretamente de Manaus por um amigo que lá estivera em férias. Ele gostava de passear com os velhos pela cidade só para ouvir as estórias de seu Totonho de quando fora prefeito. Ele sempre indicava uma obra de sua administração e relembrava as manhas e artimanhas que tivera de usar, para conseguir o financiamento da mesma.

Ao completar o Ginasial Geraldo matriculou-se em um curso técnico de Inspetor de Segurança. Joana também se interessou em fazer um curso na área da administração, preparando-se para trabalhos de atendimento ao público. Num domingo em que o patrão viera para a visita mensal aos pais, Geraldo foi com a esposa e as crianças à missa que celebrava a conclusão de seu curso técnico. Ao regressarem a casa foram surpreendidos com a presença de uma ambulância estacionada em frente. Apressaram-se e ao chegarem, foram informados pelo patrão que o pai acabava de falecer, vítima de enfarto agudo do miocárdio. A partir daí a vida mudou completamente naquela casa. A tristeza se abateu sobre todos. A rotina da casa foi totalmente reformulada. As conversas de Joana já não eram mais tão intensas. Da. Sebastiana não se conformava com a ausência do marido. Sempre perguntava a Joana onde estava o Totonho. Acabou entrando em depressão, passou a manifestar sintomas do mal de Alzheimer e com pouco mais de um ano de viuvez também faleceu. 

José Alberto decidiu vender a propriedade e avisou Geraldo sobre sua decisão. Disse que poderiam continuar morando na casa até que o novo proprietário tomasse posse. Procedeu à dispensa dos empregados, pagando-lhes todos os diretos e ainda os gratificou pelos bons serviços prestados. Indicou o nome de Geraldo à sua amiga Marlene, chefe do Deptº de Segurança e Medicina do Trabalho da Usina.

Dra. Marlene era uma carioca, loira, cabelo raspado na nuca, 1,70 m, mulher bem resolvida, formada pela UFRJ, tendo trabalhado muito tempo no plantão do Hospital Souza Aguiar. Cansada de vivenciar a miséria humana naquela unidade de atendimento à saúde pública, fez curso para Médico do Trabalho e conseguiu o cargo que atualmente exerce. Seu marido, Dr. Arnaldo, era Dentista, também do Rio de Janeiro, um pouco mais baixo que a esposa. Conheceram-se na noite carioca, desde o tempo de Faculdade. Formaram-se no mesmo ano e logo se casaram, recebendo dos pais, como presente de núpcias uma viagem à Europa, por onde passearam durante 30 dias. O casal não tinha filhos. O marido sempre gostou de criança e planejava ser pai. Marlene tinha um problema de má formação uterina, que a impedia de conceber. Fizeram todo tipo de tratamento e não obtiveram êxito, então desistiram. 

Na época da faculdade o jovem Arnaldo era tido como mulherengo. Contudo após o casamento Marlene não tinha conhecimento de nenhum caso extraconjugal. Só havia uma suspeita, que lhe foi passada por uma amiga. Em um final de semana em que ela fora a Petrópolis em visita aos pais, ele foi visto em uma badalada boate carioca ao lado de uma bela morena, junto com outro casal. Ao ser questionado pela esposa, alegou que saiu com um ex-colega de faculdade que estava acompanhado da esposa e a irmã.

A empresa ao admitir a Dra. Marlene, propôs ao marido o financiamento para estabelecimento de uma clinica dentária para tratamento de todas as especialidades odontológicas, que era uma escassez na região. Arnaldo então constituiu o projeto e convenceu outros profissionais a fazerem parte, se estabelecendo então na cidade. A clínica logo prosperou e o retorno do capital investido se deu com aproximadamente três anos. 

Um tempo após a admissão de Geraldo, ele conseguiu a moradia do bairro operário, onde reside atualmente. O salário na nova função era suficiente para a manutenção da casa, permitindo uma vida digna, sem supérfluos. Apesar disso, Joana estava insatisfeita, se sentia de certa forma inútil. Pela manhã cuidava dos afazeres domésticos, preparava o almoço, servia as crianças e as levava para a escola. Na parte da tarde se via só em casa sem praticamente nenhuma atividade. Geraldo comentou a insatisfação da esposa com sua chefe, que tomou a iniciativa de indicar Joana ao marido. 

A função de atendente na clínica dentária apresentava um “turn over” muito alto. Só houve uma funcionária que permaneceu na função por mais de um ano, todas as demais pediam demissão antes disso. Dr. Arnaldo exigia dessa funcionária atitudes simpáticas e de muita atenção com a clientela. Costumava dizer que o sucesso do tratamento, começava com uma boa recepção ao cliente. Para facilitar o público, a clínica atendia no horário de 07:00hs às 19:00hs, sendo o turno das atendentes de 6 horas. Joana foi admitida iniciando seu turno às 13:00 hs, depois de deixar os filhos na escola. Como os filhos da vizinha estudavam na mesma escola, elas faziam o revezamento, em que Joana levava as crianças e a vizinha buscava.  Ao ser admitida, Joana logo conquistou a simpatia de todos, com seu bom humor e sorriso fácil. 

Para a festa de comemoração das bodas de estanho que estava acontecendo, Joana e Geraldo convidaram seus chefes. Imaginaram que eles não compareceriam, o fizeram só mesmo por educação. Contudo, após a celebração, Dr. Arnaldo e Dra. Marlene chegaram. Ele vestido a caráter, de terno e gravata e a esposa de longo, sandália de salto, brincos combinando com o colar e “sua marca registrada”, no pulso direito a inseparável pulseira de chapinha. Logo entraram no clima da festa. Sentiram-se tão à vontade que no final subiram ao palco improvisado, para cantarem umas músicas com o conjunto que animava a festa. Não trouxeram presente. Ofereceram aos nubentes um final de semana, à suas expensas, para conhecerem Belo Horizonte. 

No sábado seguinte, após o turno de trabalho de Geraldo, embarcaram os quatro no Monza do Dr. Arnaldo. Hospedaram-se em um hotel no centro da cidade e já nesta noite foram ver uma comédia que estava em cartaz no teatro Palácio das Artes. Joana foi quem mais se divertiu, gargalhava de uma forma tão espontânea que contagiava todos a sua volta. Após o teatro foram jantar na Choperia Pinguim. No domingo cedo quitaram a diária no hotel e saíram para um “tour” pela Capital. Dr. Arnaldo os levou para conhecer a Praça do Papa, a rua do amendoim e o parque das Mangabeiras no alto da Avenida Afonso Pena. Do mirante do parque puderam admirar a vista da cidade. Dr. Arnaldo apontou o Mineirão dizendo que se localizava ao lado da Lagoa da Pampulha, que também visitariam. Retornaram pela Savassi, Praça da Liberdade, parando na Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, para Joana fazer uma prece à padroeira da cidade. Depois seguiram para uma visita a Pampulha. Conheceram os estádios do Mineirão e Mineirinho. Estiveram também na Igreja às margens da Lagoa. Geraldo comentou que não havia torre na igreja. Dr. Arnaldo explicou que a construção ao lado, com uma base estreita e à medida que subia se alargava, fazia o papel da torre que abrigava o sino. Joana observou que a construção parecia um “conjunto de gamelas emborcadas”, pois não tinha telhado. Almoçaram em uma churrascaria as margens da lagoa, seguindo de volta para casa. O jovem casal ficou maravilhado com tudo que viram e agradeceram penhoradamente a atenção dos chefes. 

A vida corrida bem para o casal. Geraldo satisfeito com suas atividades de inspetor de segurança, que o permitia se relacionar com os colegas. Procurava lhes incutir o senso do trabalho seguro. A necessidade do atendimento às normas de segurança. Estava sempre de posse de todos os equipamentos de segurança recomendados e cobrava dos colegas a mesma postura. Examinava constantemente os locais de trabalhos para se certificar das condições em que estavam expostos os trabalhadores, propondo melhorias para aumentar a segurança. Joana, feliz com seu emprego na clínica, a menos de certas atitudes do Dr. Arnaldo. Se no início ele demonstrava um grande entusiasmo com sua presença, após a festa e o passeio a BH, passou a tratá-la com mais intimidade. Sempre que podia se insinuava para ela. Elogiava sua aparência, seu trabalho. Cumprimentava-a cheio de mesuras, beijava-lhe as mãos, as faces. Presenteava-a com bombons, que mantinha em sua mesa de trabalho. (Ele era um chocólatra inveterado). Joana nunca comentava com o marido, apesar de se sentir constrangida. No seu aniversário o chefe exagerou. A presenteou com uma pulseira de chapinha, gravada com o nome dela e o número 119. Ao se encontrar com o marido naquela noite, comentou sobre o assunto demonstrando sua inquietação. Geraldo expressou seu nervosismo com esses acontecimentos. Considerou tudo aquilo como assédio à esposa. Intrigou-lhes o nº 119 gravado diante do nome dela. Geraldo aventou a possibilidade da esposa se demitir. Diante de sua recusa, ponderou a possibilidade de ir ter com o Dr. Arnaldo. Joana não achou boa a ideia, imaginando que o marido pudesse se desentender com o chefe. 

No dia seguinte, no trabalho Geraldo observou que a Dra. Marlene não estava usando a sua inseparável pulseira de chapinha. Comentou com ela sobre o fato e foi informado que a tinha perdido. Estava muito sentida, pois aquela joia tinha para ela um valor estimativo muito grande. Havia pertencido à sua avó. 

Na próxima folga de Geraldo do turno da manhã, sem conhecimento da esposa, ele pegou o “Trovão Azul” e se dirigiu a clínica, na posse do presente que ela havia ganhado do chefe. Dr. Arnaldo o recebeu na sala da administração:

- A que devo a honra da visita do marido de minha funcionária predileta?

- É esse o problema Dr. Não estamos gostando nada desse “tratamento preferencial”.

- Você acha que estou dando em cima dela?

- É, Dr. Arnaldo. Acho que o Senhor está assediando moralmente minha esposa. Ela está se sentindo constrangida.

- O que é isso negão, está com ciúmes? Sua esposa é mesmo muito charmosa.

- Mas é minha. Por favor, lhe peço encarecidamente, pare com essas insinuações.

- O que é isso rapaz. Quem você pensa que é para me falar assim. Respeite-me.

A conversa começou a tomar um rumo não imaginado por Geraldo, que retrucou.

- Me respeite o Senhor. Só porque é doutor acha que pode tudo.

- Olha, não peguei sua mulher AINDA. Mas já trocamos uns beijinhos (provocou).

- Seu mentiroso. Além de mentiroso, ladrão. Rouba a pulseira da esposa para presentear a funcionária. 

Atirando-lhe o estojo com o presente que ele havia feito à sua esposa.

A discussão estava cada vez mais fora de controle. Dr. Arnaldo se sentia inferiorizado diante daquele “negão” de quase dois metros de altura sentado à sua frente. Depois de insultos de parte a parte, ele tirou uma arma da gaveta de sua mesa e levantando-se, exigiu que seu desafeto se retirasse da sala. Diante da situação Geraldo se levantou, caminhou em sua direção e dedo em riste disse-lhe:

- Seu safado, deixe minha mulher em paz.

Nesse momento Dr. Arnaldo se descontrolou, e deu-lhe um tiro, atingindo seu joelho esquerdo.

Geraldo então se atracou com ele e na tentativa de desarmá-lo, houve um disparou acertando a virilha do doutor. O pessoal da clínica acorreu à sala, providenciando o socorro e comunicando a polícia. Quando chegaram, polícia e ambulância, encontraram os dois feridos. Geraldo sentado em uma cadeira e a arma caída ao chão, próxima ao estojo da joia. Dr. Arnaldo se encontrava estirado ao chão sangrando, quase já desfalecido. Os dois foram conduzidos ao hospital e as esposas comunicadas da ocorrência. Dra. Marlene imediatamente cuidou do esposo que se encontrava em situação crítica. Já havia perdido a consciência. Baldados todos os esforços, a bala destroçou a artéria femoral profunda na região inguinal causando choque hipovolêmico, com grande perda de sangue, levando o paciente a óbito. Geraldo foi atendido pelo médico de plantão que lhe fez um curativo encaminhando-o para a radiologia. Examinada a chapa, constatou-se que a bala entrou em um ângulo de 45 graus, atingindo a rótula e saindo pelo lado de fora da perna. A operação então foi programada. 

Preso em flagrante, Geraldo foi operado no dia seguinte e depois conduzido à cadeia com a perna gessada do pé a virilha. Os primeiros 45 dias de prisão ele passou em cima de uma cama em repouso absoluto. Durante os próximos seis meses era escoltado diariamente até o hospital para uma sessão de fisioterapia. 

O delegado conduziu o inquérito partindo da premissa de que foi um crime doloso, por motivo fútil. O criminoso agiu sob efeito da emoção provocada pelo ciúme. O sindicato ao qual Geraldo era filiado votou deliberação especial, aprovada de forma unânime para patrocinar sua defesa. Foi destacado o Dr. Oswaldo, com grande experiência na área trabalhista, contudo nunca havia atuado em causa criminal. Ele entrou com vários pedidos de “habeas corpus”, não logrando êxito e Geraldo permaneceu preso até a data do julgamento. Nesse tempo auxiliou o pessoal da carceragem na manutenção da cadeia. Ocupava-se de pequenas tarefas, numa forma de fazer o tempo passar mais rápido. 

A tese da defesa foi estabelecida sob a premissa de ter ocorrido um acidente fatal. O réu não tinha intenções de agredir a vitima. Sua visita tinha o cunho exclusivo de solicitar à vítima, a cessação do assédio a que vinha submetendo sua mulher. O acusado agiu em legítima defesa própria e da honra da esposa. A estratégia da defesa seria conduzida em duas frentes. Uma, procuraria demonstrar os valores morais do réu, ressaltando sua boa índole. A outra deveria estabelecer a fraqueza de caráter da vítima que sempre assediava suas funcionárias. A promotoria procurou caracterizar o acusado como pessoa violenta, quando submetido a fortes emoções. Outra linha estabelecida pela acusação foi ressaltar o espírito comunitário da vítima, sempre agindo em prol da população. Fora eleito vereador em uma legislatura e nesse período propugnou pela saúde da população. Criou programas educativos junto às escolas de como proceder a uma correta higienização bucal. Estabeleceu campanhas de prevenção da cárie dentária, entre outras. Só deixou a vida pública por solicitação da esposa que reclamava de sua ausência do lar.

O júri foi marcado para uma 6ª feira com início às 14:00 hs. Nesse dia, depois de instalada a sessão o Juiz procedeu ao sorteio do conselho de sentença, que ficou constituído de 4 mulheres e 3 homens. Dentre as mulheres, havia uma médica pediatra, outra obstetra, e duas empresárias. Dos jurados homens, um era funcionário público, outro empresário e o terceiro contador. O Juiz e demais membros do júri fizeram perguntas ao réu que reafirmou sua inocência. Confessando seu arrependimento e se desculpando pelo ocorrido. O Juiz então apresentou aos jurados o processo, expondo os fatos e provas recolhidas na cena do crime. Em seguida a promotoria começou o desfile das testemunhas de acusação. Eram basicamente funcionários da clínica, que foram unânimes em afirmar que a vítima foi insultada. Ouviram as palavras “mentiroso”, “ladrão” e “safado”, proferidas pelo acusado em alto e bom som. O depoimento da Dra. Marlene foi um momento de grande emoção. Ela relatou que sua vida conjugal fora muito harmoniosa. Com a voz embargada pela emoção e lágrimas no rosto disse que estavam próximos de completar BODAS DE PRATA. Quando inquirida pelo Dr. Osvaldo, ele lhe apresentou a pulseira de chapinha recolhida na cena do crime:

- A senhora reconhece esse objeto como de sua propriedade?

Ela manuseou o objeto e respondeu:

- Sim, eu a perdi há um tempo.

- O réu alega que foi presente da vítima à sua esposa.

- Não tenho conhecimento disso.

- Estão gravados aí o nome da esposa do réu e o nº 119. A senhora sabe por quê?

- Essa joia pertenceu a minha avó que se chamava Joana e fazia aniversário em 11 de setembro. 

Houve um burburinho na plateia e o Juiz teve que agir para manter a ordem.

Dispensada a testemunha, a promotoria voltou à acusação. Em seu discurso, o Promotor reafirmou os dizeres das testemunhas. Ressaltou que o réu ceifou a vida de um esposo querido, um homem de bem, um dedicado membro da comunidade. Esclareceu que foi sob a liderança do Dr. Arnaldo que sua clínica havia estabelecido convênio com a Faculdade de Odontologia da UFMG, para a prática profissional dos estudantes. Nos finais de semana ele liberava gratuitamente, as instalações e equipamentos da clínica para a prática estudantil. Ele fez a proposta objetivando o atendimento da população carente da cidade, que assim poderia ser tratada por futuros profissionais, assistidos pelos professores. Outro convênio estabelecido pelo Dr. Arnaldo era junto às prefeituras da região que poderiam oferecer tratamento dentário a seus funcionários e dependentes, a preços subsidiados, para desconto em folha. Lembrou aos jurados o tempo em que a vítima havia atuado na política local com grande empenho. Finalizou solicitando a condenação do réu. 

Dada a palavra à defesa Dr. Osvaldo convocou a primeira testemunha. Era um colega de trabalho do réu que relatou sobre um acidente que sofrera no trabalho. Ele é mecânico industrial e certa vez no exercício de suas atividades, rompeu inadvertidamente, tubulação de gases tóxicos e foi salvo pelo colega. Geraldo assim que foi notificado se dirigiu até o galpão retirando-o para um local arejado, aplicando-lhe a “respiração boca a boca”. Ao mesmo tempo instruiu a equipe de socorro, que ao chegar já tinha conhecimento prévio do ocorrido, facilitando o atendimento médico. As demais testemunhas eram todas ex-funcionárias da clínica que se demitiram em função dos assédios do patrão. Marli foi a última a falar. Era jovem, morena 1,65 m de altura, cabelos lisos, queixo quadrado, olhos verdes, seios pequenos, pernas bem feitas. Quando admitida na clínica acabara de completar 16 anos. Seus pais eram semianalfabetos. A mãe diarista e o pai bombeiro hidráulico e eletricista. A filha estudara em escola pública, até o 4º ano ginasial e o salário dela representava uma grande ajuda no orçamento doméstico. Depois de acomodada no banco das testemunhas e dos procedimentos de praxe, Dr. Osvaldo disse:

- A senhora é ex-funcionária da clínica dentária?

- Sim.

- Também se demitiu?

- Não. Quando retornei da licença maternidade, o patrão já tinha admitido a esposa do réu em meu lugar e então me demitiu.

- A senhora tão jovem e já é mãe? Como isso aconteceu?

O promotor interveio dizendo ao juiz que aquilo nada tinha a ver com o fato em julgamento. A defesa alegou que era necessário para esclarecimento aos jurados quanto à conduta da vítima. O juiz aceitou a argumentação e mandou a testemunha prosseguir seu relato.

- Pouco tempo depois de começar a trabalhar na clínica, Dr. Arnaldo começou com uns chamegos pro meu lado. Eu achei estranho aquilo e meio sem graça rejeitava. Um dia ele foi claro e me disse que me queria como sua mulher. Fiquei apavorada, principalmente porque era virgem e tinha um namorado. Ele me prometeu aumento de salário. Pensei no dinheiro. Meu pai se encontrava doente, impedido de trabalhar. Acabei aceitando e muito discretamente nos tornamos amantes.

- E o namorado?

- Quando fiquei grávida ele terminou o namoro e desapareceu. 

- Quanto ao amante?

- Contei pro Dr. Arnaldo que o filho que esperava era dele, pois nunca tive contato com outro homem. Achei que ele se desesperaria e me forçasse a abortar. Mas, pelo contrário ficou muito feliz. Sempre quis ter um filho, contudo aquilo deveria ficar só entre nós. Quando a criança nasceu ele providenciou seu registro em cartório de Belo Horizonte e o chamou de Armando.

Neste ponto de seu depoimento houve nova manifestação da plateia exigindo a intervenção do juiz.

- A senhora pode provar o que diz?

- Sim.

Passou ao advogado o envelope que mantinha em mãos desde o início do depoimento. O mesmo continha uma cópia autenticada da certidão de nascimento do filho. Dr. Osvaldo examinou o documento e o entregou ao juiz, solicitando que fosse juntado aos autos.

- Porque só agora a senhora traz a público essa estória?

- Havíamos feito um pacto de segredo entre nós, mas agora já não há mais motivos. Além do mais está difícil sustentar o filho sem a pensão do pai.

Dispensada a testemunha, a defesa fez suas considerações finais e dirigindo-se aos jurados pediu a absolvição do réu.

O juiz suspendeu a sessão e encaminhou os quesitos ao conselho de sentença que em menos de meia hora já tinha a decisão. 

Retomada a sessão o juiz, de posse das cédulas contabilizou os votos e anunciou o resultado. 

POR SETE VOTOS A ZERO OS JURADOS CONSIDERARAM O RÉU INOCENTE.

O juiz imediatamente assinou o alvará de soltura, encerrando a sessão. O réu, então pôde sair do fórum diretamente para sua casa. 

Houve aplausos gerais da plateia. Geraldo caiu em pranto convulsivo, se dirigiu a Dra. Marlene e lhe pediu perdão. Ela aceitou seu abraço. Depois ela se dirigiu até Marli abraçando-a e pedindo para conhecer o filho que ela não pode dar ao marido. Fez questão de dizer a Marli que gostaria de participar da educação de seu filho, ajudando-a com os gastos de manutenção do garoto, além de incluí-lo no inventário do pai. 

Joana havia combinado com o marido que não iria ao fórum. Preferia ficar em casa participando de uma corrente de oração organizada pelos vizinhos. Assim que a notícia da absolvição se tornou pública ela pegou as crianças e foi de carro buscar o marido. Geraldo descia as escadarias do fórum na companhia do Dr. Osvaldo quando avistou à luz do poste em frente, sua esposa e as crianças ao lado do “Trovão Azul”. As crianças correram para abraçar o pai que os acolheu carinhosamente, dizendo da saudade que sentia deles. Caminhou em direção a Joana, se abraçaram e se beijaram ali mesmo na rua. 

Dirigiram-se então para casa, Geraldo estava a fim de tomar um banho e se lavar de toda aquela angústia por que passara nos últimos meses. Ao chegarem observaram que as luzes de todas as casas da rua se encontravam apagadas. Quando Joana estacionou o fuscão e apagou o farol, era o sinal, como que por encanto todas as luzes se acenderam e a turma cercou o “Trovão Azul” resgatando de lá o amigo querido. O colocaram nos ombros e o levaram direto para o fundo do quintal onde o isopor já continha a cerveja gelada. Logo apareceu o pessoal do churrasco e a festa começou. Joana diante de todos os amigos perguntou ao marido:

- Amor sabe que dia é hoje?

- Sexta-feira.

- Não, quero dizer a data?

- Não me lembro. Todo esse tempo na cadeia me fez muito mal. Perdi um pouco a noção do tempo.

- Hoje querido é 7/7/77, nosso aniversário de onze anos de casamento. Estamos completando BODAS DE AÇO.

Camilo N. Góes ( O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Agosto/2012